Pois bem, eis que eu prometi ao meu amigo Silveira que voltaria a postar. Eu vou. Mas não tenho tido tempo ou mesmo inspiração (ou para ele, transpiração) para produzir. Vou me preparar. Até lá, para não deixar isso aqui muito parado, deixo uns antiguinhos para matar minha própria saudade.
“É só olhar pra ela, praquele jeito que ela tem de acender o cigarro como quem descansa de uma morte longa, é só vê-la daquele jeito de mãezinha desprotegida, a superputa da madrugada, só ver seus olhos amarelos olhando fundo na alma, que eu esqueço tudo, que me importa o que ela sente? quem se importa em saber de onde vem o que se come depois de dias sem nada no estômago? sempre assim, minha fome é de dois, de cem dias quando se trata daquela coisinha tão pequena, tão mais forte que eu, e é só olhar pra ela que eu nem quero mais saber onde ela estava, tão devassa, só quero que venha, vem logo mãezinha, me carrega no colo, me aperta forte a mão, larga o cigarro, o conhaque, ta tão frio, vem cá, canta pra mim imitando Piaf, vem minha mãezinha esquentar meu corpo, tem mais conhaque depois, te prometo, eu juro uma garrafa inteirinha derramada na tua boca, entre as tuas presas, bem quente, mas agora vem antes que eu morra, antes que a tua ausência me congele de vez, vem que eu te deixo minha marca, mas dessa vez minha filhinha, não leva embora minha boca quando a tua for, não me leva o braço nas ancas, deixa, princesa, teus olhos amarelos e um cigarro pra mim”.
“sim, sou eu, enredada em espasmos, magenta e púrpura, equidistante, constituída de suores, sorrisos, hálito e devaneios, e olhando imperativa, sussurro concreto cortando o ar no caminho do seu ouvido, baixinho, sou eu, inefável e etérea, imagem que vai sumindo, sentidos a postos, o ambiente perfeito, o perigo latente, eu me olhando para dentro e te vendo por fora, espiã de alma, no lugar, um hiato, um sabor imaginário, um gôzo anteposto, desgosto estouvado, rotina plagiada, um nada bem cheio de tudo que é coisa, e essa minha cabeça, essa sua boca, essa nossa verdade, absurdo insensato passeando por nós, a minha senha em seus dedos, em seus lábios, na voz bem baixinha, no calor transparente que escorre de mim, indecisa, extraviada, mínima e tão comum, tímida e tão rainha, tão pequena, de joelhos, com lapsos de memória, quase um idílio, canção segredada, memória da pele girando abstrata e desordenada, litania que se derrama lenta, instintiva, canção de Neruda, desesperada, sou eu assim, levemente condenada, essencialmente lasciva, olhar de promessa e palavras de fim, decantada do engano, num lamento insano, galáctico e perdido, jurando uma sintonia anoitecida, quase oração pagã, em transe, eu arredia e singela, transparente e tão complexa, sutil, sempre sutil, transpirando seus lábios, sua pele, suas armadilhas tão óbvias e inevitáveis, e eu tão à sua mercê, criança no limiar, suas mãos a me guiar tão cega, tão alheia ao que me espera, ao que eu aguardo, ao que eu guardo de seu em mim, eu tão outonal, tão despida de armas, tão lunar nessa ambiguidade, tão sólida e tão esparsa, tão anônima e tão entregue, tão crédula e impertinente assim a seus pés, eu me colho em flores atemporais para enxergar você, eu a te olhar intransitiva, a alardear nossos segredos, eu me entregando em pequenas doses, tão grandes, me perdendo tão envolvente, tão frágil, tão menina, a boca em meio tom e os olhos me desmentindo, eu fugindo o tempo todo para, no fim, desaguar em você”.