O que fazer agora que todos foram embora, não vejo mais nada ou ninguém em torno de mim, o que fazer? Amanheci assim com jeito de chuva nos olhos e uma solidão maior do que eu. Não, não sei pra onde foram ou se quem foi fui eu. Só sei que a ilha que eu estava ficou de repente maior, mas não me cabe mais. Estou assim sem espaço pra mim. Não estou cabendo em nada. Minha casa não é mais minha e a casa de minha alma não existe mais, há um nonsense no ar que me deixa perdida. Na verdade, nem sei se procuro, ou o que procuro, só sei que algo tem de ser achado pra chuva ir embora e eu voltar. Ou quem sabe andar com a chuva, eu e minha solidão brilhante que reflete a cor das paredes. Quem sabe.

E eu continuo amando Curtis Salonick

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E a volta às aulas me inspira a voltar a postar por aqui. O mundo de absurdos que eu ouço, e que o caro você que me lê vai compartilhar comigo, não pode ficar somente para os poucos privilegiados (?) presentes no momento.

Por incrível que pareça, as últimas pérolas não vieram nem da faculdade, mas do trabalho. De dano à personalidade de ente despersonalizado (pois é) a frutos percebidos por posse de má-fé em ação trabalhista, são coisas que somente o detentor do olho de Thundera poderia ver.

Anyways, vou lembrando e expondo por aqui, e posso apostar que, em tempos de big brother, assunto para risadas não há de nos faltar.

Pois bem, eis que eu prometi ao meu amigo Silveira que voltaria a postar. Eu vou. Mas não tenho tido tempo ou mesmo inspiração (ou para ele, transpiração) para produzir. Vou me preparar. Até lá, para não deixar isso aqui muito parado, deixo uns antiguinhos para matar minha própria saudade.

“É só olhar pra ela, praquele jeito que ela tem de acender o cigarro como quem descansa de uma morte longa, é só vê-la daquele jeito de mãezinha desprotegida, a superputa da madrugada, só ver seus olhos amarelos olhando fundo na alma, que eu esqueço tudo, que me importa o que ela sente? quem se importa em saber de onde vem o que se come depois de dias sem nada no estômago? sempre assim, minha fome é de dois, de cem dias quando se trata daquela coisinha tão pequena, tão mais forte que eu, e é só olhar pra ela que eu nem quero mais saber onde ela estava, tão devassa, só quero que venha, vem logo mãezinha, me carrega no colo, me aperta forte a mão, larga o cigarro, o conhaque, ta tão frio, vem cá, canta pra mim imitando Piaf, vem minha mãezinha esquentar meu corpo, tem mais conhaque depois, te prometo, eu juro uma garrafa inteirinha derramada na tua boca, entre as tuas presas, bem quente, mas agora vem antes que eu morra, antes que a tua ausência me congele de vez, vem que eu te deixo minha marca, mas dessa vez minha filhinha, não leva embora minha boca quando a tua for, não me leva o braço nas ancas, deixa, princesa, teus olhos amarelos e um cigarro pra mim”.

“sim, sou eu, enredada em espasmos, magenta e púrpura, equidistante, constituída de suores, sorrisos, hálito e devaneios, e olhando imperativa, sussurro concreto cortando o ar no caminho do seu ouvido, baixinho, sou eu, inefável e etérea, imagem que vai sumindo, sentidos a postos, o ambiente perfeito, o perigo latente, eu me olhando para dentro e te vendo por fora, espiã de alma, no lugar, um hiato, um sabor imaginário, um gôzo anteposto, desgosto estouvado, rotina plagiada, um nada bem cheio de tudo que é coisa, e essa minha cabeça, essa sua boca, essa nossa verdade, absurdo insensato passeando por nós, a minha senha em seus dedos, em seus lábios, na voz bem baixinha, no calor transparente que escorre de mim, indecisa, extraviada, mínima e tão comum, tímida e tão rainha, tão pequena, de joelhos, com lapsos de memória, quase um idílio, canção segredada, memória da pele girando abstrata e desordenada, litania que se derrama lenta, instintiva, canção de Neruda, desesperada, sou eu assim, levemente condenada, essencialmente lasciva, olhar de promessa e palavras de fim, decantada do engano, num lamento insano, galáctico e perdido, jurando uma sintonia anoitecida, quase oração pagã, em transe, eu arredia e singela, transparente e tão complexa, sutil, sempre sutil, transpirando seus lábios, sua pele, suas armadilhas tão óbvias e inevitáveis, e eu tão à sua mercê, criança no limiar, suas mãos a me guiar tão cega, tão alheia ao que me espera, ao que eu aguardo, ao que eu guardo de seu em mim, eu tão outonal, tão despida de armas, tão lunar nessa ambiguidade, tão sólida e tão esparsa, tão anônima e tão entregue, tão crédula e impertinente assim a seus pés, eu me colho em flores atemporais para enxergar você, eu a te olhar intransitiva, a alardear nossos segredos, eu me entregando em pequenas doses, tão grandes, me perdendo tão envolvente, tão frágil, tão menina, a boca em meio tom e os olhos me desmentindo, eu fugindo o tempo todo para, no fim, desaguar em você”.

Eu ando lendo umas coisas velhas minhas, e tem umas que eu realmente não devia ter deixado pra trás. Essa historinha que eu vou colocar foi escrita em 25/02/2004, e eu rolei de rir quando li de novo. Foi muito engraçado no dia que aconteceu.

“É uma história verídica. Estávamos eu e meu namorado num ritual de entrega ás bebidas para aliviar as tensões do dia-a-dia, quando de repente, não mais que de repente aparece um cidadão e diz:

_ Moço, com licença, eu não quero incomodar, mas você pode escrever uma carta que eu ditar, por favor?!

Meu namorado, imaginando que a carta seria para a mãe do homem, que tinha sotaque nordestino, respondeu que sim. Então a figura arranjou duas folhas de caderno e começou a ditar a carta. Transcrevo-a na íntegra, e sem mudar palavra do que ele ditou.

Conceição;
Você me falou hoje cedo que tinha outro cara na sua cola. Ele vai ter que segurar a onda e você também. Se ele acha que você está jogada, você não está jogada não. Você está arrumando uma boca de caixão pra ele. Vocês dois estão achando que eu vou perdoar, mas eu não perdôo. Pode ser na terra, no céu ou no inferno, me conte o que acontecer. Pode ser algum palhacinho que estiver envolvido com você, ele vai se rodar. Eu estou preparado.

Quando eu ligo, você só pode estar envolvida. Se o telefone está dentro de casa, é pra quê? É só pra enfeite? O cara que está com você é um safado, fedaputa, um gigolô! Vai lavar sua cara pra ficar limpa, por que você tem marido!

Ele que cai fora que é melhor pra ele, antes que eu lhe corte a cabeça!

Romi.

Bom, esse cidadão deve ter em torno de trinta anos e nos contou ter matado o próprio pai no interior da Bahia. Não estava mal vestido, era risonho e parecia tranquilo. Disse que não iria enviar a carta, mas grudá-la no poste em frente à casa da mulher dele, a Conceição. E uma cópia também na porta da casa do amante, que ele sabe quem é. Agradeceu e se despediu. É por isso que eu bebo.”

Qualquer semelhança NÃO será mera coincidência :/

Estava eu conversando com um colega de sala da faculdade, quando ele me contou um feito de seu filho (se não me engano, de oito anos de idade): o professor que ensina língua portuguesa ao garoto é um tipo meio estranho, que tem mania de “distribuir” pontos extras aos alunos que acertarem certas perguntas que ele faz (via de regra, ninguém acerta). Certo dia esse professor chegou na sala de aula, dizendo que conferiria um ponto extra ao aluno que soubesse o significado da palavra defenestrar. Pois o filho do meu colega levantou a mão pedindo a palavra, que lhe foi dada, e respondeu: defenestrar é atirar pela janela! Os demais colegas de sala olharam o garoto, meio achando graça, com a certeza de que ele tinha errado a resposta. Antes mesmo que o professor se manifestasse acerca do dito, o filho do meu colega completou: e antes que o senhor me pergunte, a palavra “defenestrar” não se aplica se os envolvidos stiverem no mar. No caso, deverá ser usada a palavra “alijar”.

Claro, o garoto estava certo. Eu, que sempre usei ambas as palavras sem saber o exato significado das mesmas, achei isso o máximo e fui pesquisar o que significavam mesmo as tais palavras. Segundo o Dicionário Priberan alijar é “Tirar ou deitar fora (a carga, para aliviar o navio)”.

Por sua vez, Deonísio da Silva, em seu excelente e bem humorado livro “A vida íntima das palavras”, aponta, sobre a palavra “defenestrar”:

DEFENESTRAR: do francês défenestrer, verbo formado a partir do latim fenestra, janela, significando tirar as janelas de um edifício e também jogar algo ou alguém pela janela. É uma espécie de eufemismo maldoso que se utiliza para indicar a demissão de um alto funcionário. Ainda que o ocupante do cargo ilustre saia pela porta, em geral a da frente, diz-se que foi defenestrado. O vocábulo começou a ser usado nesse sentido em 1616. Defenestrar no sentido de livrar-se de desaforos remonta ao dia 21 de maio de 1618, quando três membros católicos do conselho nacional da Boemia, em Praga, foram atirados da janela de um castelo por adversários protestantes, depois de ácidas discussões. O episódio deu origem à Guerra dos Trinta Anos, de cunho religioso e político, que se propagou por toda a Europa.

Como se vê, o filho do meu colega de sala acertou a resposta. E mais, o professor deu-lhe não um, mas dois pontos extras, por também falar sobre o vocábulo “alijar”. E eu que achava que sabia o significado de ambas as palavras, agora o sei de verdade.

Aproveitando o ensejo, conheci essa semana o site Skoob, que te permite montar sua estante virtual, com coisas que você já leu, vai ler, começou a ler e não terminou, dentre outras coisas legais. Você pode resenhar obras lidas, ler resenhas de outros usuários, enfim, uma ótima forma de catalogar sua biblioteca pessoal e de incluir (e se lembrar depois) livros que pretende ler. É bem divertido.

O curso de direito pode nos trazer muitos desgostos, mas não se pode negar que ele proporciona mais risadas que a maioria dos outros cursos de graduação. Já na metade do curso, e lidando com os meandros do direito também no ambiente de trabalho, eu poderia escrever um livro capaz de desopilar o fígado da mais estressada das criaturas (Cris, até você ficaria com as bochechas doendo de tanto rir!) só com os absurdos que presenciei.

Para se ter uma idéia, já vi semovente (leia-se: vaca) com tutor, já vi o direito do trabalho no BRASIL tendo início com a Revolução FRANCESA (!!!), isso fora os “uso campeão”, “uso capiau” (que era na verdade o usucapião), e claro, isso aconteceu em uma sala de aula com alunos da graduação de direito.

Teratologias à parte, uma coisa que nunca pensei que fosse ver é uma certa qualidade (?) de aluno advogando. Porque tem os medianos, e esses costumam mesmo advogar, tem os bem ruinzinhos, mas que tem o escritório do pai para treinar e melhorar sem acabar com a vida dos outros, esses casos são previsíveis. Agora, tem alunos realmente sem a menor condição existir em sala de aula, quiçá fora dela. E eu sempre confiei que todo ser humano é dotado do mínimo de bom senso e autocrítica, que o poupa de vexames maiores do que aqueles que a sua condição patética, via de regra, lhe impõe.

Pois não é que fiquei sabendo (esse tipo de notícia voa) que uma dessas pérolas que a faculdade inteira conhece (não só pelas proezas realizadas e pelos absurdos ditos em sala, mas também porque a criatura faz matérias de uns seis períodos diferentes, que foram ficando pra trás) resolveu advogar em um escritório com uma amiga? Mau pude esconder meu espanto. Na verdade, não escondi, e nem consegui terminar o almoço diante da crise de riso que a notícia me causou.

Mas não é caso de riso não. Imagine se você, acreditanto que está protegendo seus direitos, vai atrás de um advogado e encontra a tal?! Depois de uma petição espetacular, em que ela acaba com qualquer chance de êxito que você tenha, pede ao final os onorários (assim mesmo) dela e termina com o clássico “ok. Fim” que os mais íntimos já conhecem.

E o pior, meu caro jurisdicionado, é que nesse caso, você não perderá somente a ação, mas também a calma. Porque quando você procurar a tal, ela te dirá que fez absolutamente tudo de forma correta, porque afinal, um idiota nunca hesita. E nessa brincadeira, lá se foram suas chances, seu dinheiro, seu tempo e sua paciência.

E depois a gente ainda reclama do exame da OAB…

<INTERNA>

Mas fica uma dúvida cruel: seria a amiga e companheira de escritório a Cleusa? Por que nada é tão ruim que não possa piorar.

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